segunda-feira, 14 de novembro de 2011


GUIA DE SUSTENTABILIDADE URBANA NASCE EM PORTUGAL
Uma equipe do Departamento de Engenharia Civil da Universidade do Minho (UMinho) está a preparar um sistema de certificação da sustentabilidade urbana em Portugal, após já o ter feito ao nível do edifício. A avaliação das áreas citadinas incidirá entre o valor "excelente" e "insustentável", segundo parâmetros como a proximidade a serviços, a coerência urbanística e o respeito ambiental, segundo revelaram os professores Luís Bragança e Ricardo Mateus.
É preciso gastar um litro de gasolina para ir comprar outro de leite em Lisboa? Que potencial energético gratuito é desperdiçado com a má orientação solar de um loteamento em Gaia? Qual é o impacto socioeconómico de construir sobre linhas de água na Madeira, se numa cheia o esforço de anos pode vir a ser destruído? Estas são alguns casos elencados no guia que está a ser elaborado no Laboratório de Física e Tecnologia das Construções (LFTC) da UMinho, em Guimarães. O manual aplica à realidade e lei portuguesas o sistema internacional «Sustainable Building Tool - SBTool», desenvolvido pela International Initiative for a Sustainable Built Environment (iiSBE).
“Deixámos de analisar apenas o edifício e passámos a integrá-lo nos problemas do seu ambiente urbano. Esperamos concluir esta ferramenta complexa em dois anos”, avançou Luís Bragança. A delegação iiSBE Portugal vai depois formar os avaliadores e promover a certificação da sustentabilidade urbana.

Diversas autarquias têm já acordos com a iiSBE ao premiar e dar benefícios relativamente a edifícios de nível superior de desempenho (“A” ou ‘A+’). O ranking incluirá critérios existentes e outros em desenvolvimento, comparando dezenas de situações de referência e ponderando que categorias podem compensar ou anular outras, para definir o comportamento global. “É importante ver o local que usamos diariamente (casa, escritório, escola) face a serviços como correio, farmácia, café, banco, comboio, shopping. Isso evita deslocações, poluição e traz qualidade de vida”, realça o investigador.


Luís Bragança nota que a receptividade para regenerar cidades “é sempre boa”, mas ao chegar à prática esbarra na conjuntura económica. “Estamos a sensibilizar cidadãos, municípios, associações, empresas e, em particular, os governos, só com estes se avança para a regulamentação clara e para intervenções gerais”, sublinhou. Nas intervenções localizadas, o perito elogiou Guimarães, Património Mundial desde 2001 e Capital Europeia da Cultura 2012.

Preocupações actuais

As urbes dos países desenvolvidos atingiram o limite do edificado, acumulando fogos devolutos e fogos novos sem comprador. A preocupação actual é não deixar degradar o ecossistema construído e reabilitar de modo agradável, duradouro, sem grandes impactes. “Isto devia ter sido feito a montante, mas as sociedades ocidentais desenvolveram-se pela iniciativa privada e individual. As manchas urbanas expandiram-se para terrenos mais baratos, como manchas de óleo, razão pela qual se ocupou solo agrícola e ecológico e porque a maioria do povo vive nos subúrbios, exigindo movimentos pendulares diários de/para o centro, com consequências nefastas”, reflectiu ainda.

Os projectos do LFTC têm associado entidades como o Instituto Fraunhofer (Alemanha), Centro Técnico de Investigação da Finlândia, Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (França) e universidades como Flórida (EUA), British Columbia (Canadá), UNAM (México) ou Santa Catarina (Brasil).

A nível europeu, basta citar um estudo recente coordenado por Luís Bragança que envolveu 28 países. “Concluímos que a intervenção no ambiente natural e construído deve ser integradora a nível tecnológico, da vivência sociocultural, da memória futura. Não construímos para amanhã, mas para 50 a 100 anos”, realça. A UMinho tem 18 mil alunos, um milhar dos quais em cursos de Engenharia Civil.
Certificação irá definir comportamento global.
Certificação irá definir comportamento global.

    04/11/2011

    Nenhum comentário:

    Postar um comentário